Inspirado no texto bíblico, quero perguntar pela atitude do cristão diante da crise, da dificuldade e do sofrimento. A personagem bíblica que irá nos acompanhar é Neemias. A sua relevância vem do fato de ele precisar optar entre manter a sua posição confortável no palácio real persa ou arregaçar as mangas e fazer algo na sua decrépita Jerusalém. Para fazer alguma coisa, no entanto, é preciso querer saber, e saber, o que está acontecendo.
O cidadão do reino de Deus não é avestruz
Dizem que o avestruz tem um "estômago de ferro", capaz de absorver qualquer coisa. Outra característica dessa ave é a estranha atitude de enfiar a cabeça na terra diante do perigo; assim ele nos diz que não quer ver nem saber.
Há muito cristão-avestruz por aí. Enfia a cabeça na terra para não precisar, ou por não querer, ver nada. E às vezes a igreja acaba sendo esse lugar onde "nos enfiamos" para não ver nada, para não participar dos conflitos do mundo. A própria igreja, como estrutura, pode até fomentar essa atitude. Ela se anuncia como "um lugar de paz" e enche a nossa agenda de atividades. Assim, vivemos na igreja e não vemos o que acontece lá fora. Aliás, nem temos tempo para isso, pois estamos sempre em cima da hora para mais uma reunião da igreja...
Essa espiritualidade da fuga é doentia. É alienante. Não nos permite olhar a vida como ela é.
O cidadão do reino senta-se, curva-se e chora
Quando cheguei à cidade de Bombaim, na Índia, já era madrugada. Assim, no caminho do aeroporto para o hotel, não dava para ver muita coisa. Aos poucos, porém, fui percebendo que o cenário era de pobreza absoluta. Fui vislumbrando corpos ao relento, estendidos aqui e ali, tentando dormir sobre tábuas. Coisa triste de ver. Coisa de chorar.
O cristão chora. Ele chora pelo outro. Chora de dor e chora por misericórdia. Jesus chorou quando contemplou Jerusalém, e com Ele devemos aprender a chorar. O cristão não pode não chorar — pelas vítimas e pelos vitimadores. Pelas crianças, pelas mulheres e pelos assaltados. Pelos meninos de rua, pelas viúvas e por aqueles que vivem com medo. Pelos seqüestrados, ameaçados e violentados. Por aqueles que choram — por dentro e por fora.
Da janela do seu quarto Neemias caminha para a cama. Joga-se sobre ela e soluça. Ele chora o choro convulsivo do coração de Deus. Hanani, ao seu lado, não sabe o que fazer e decide ficar quieto. É preciso que ele fique quieto para que Neemias possa chorar. A nossa fé deve levar-nos a chorar, e deixar-nos chorar. Uma espiritualidade que não deixa chorar é superficial e, portanto, supérflua. Engana a alma e nos desvia de um verdadeiro encontro com Deus.
Infelizmente a igreja dos nossos dias não nos convida a chorar pelo outro. Ela quer se especializar em enxugar lágrimas, e não em produzir lágrimas. Mas não se pode enxugar o que não existe. E o que não há, muitas e muitas vezes, são as lágrimas pelo outro. Na igreja devemos ser desafiados e convidados a chorar lágrimas de compaixão e de misericórdia. Temos conseguido ouvir o soluço de Neemias?
O cidadão do reino vive o luto, jejua e ora
Neemias está inconsolável. Está de luto. Perdeu o apetite — e que ninguém insista em colocar um prato diante dele. Do soluço, portanto, ele caminha para o luto e soluça uma oração. Oração das entranhas. Oração segundo o coração de Deus. Oração com as palavras das promessas de Deus. Oração que gesta esperança.
A oração de Neemias é muito rica, mas está marcada pelas lágrimas:
E disse: ah! Senhor, Deus dos céus, Deus grande e temível, que guardas a aliança e a misericórdia para com aqueles que te amam e guardam os teus mandamentos! Estejam, pois, atentos os teus ouvidos, e os teus olhos, abertos, para acudires à oração do teu servo, que hoje faço à tua presença, dia e noite, pelos filhos de Israel, teus servos; e faço confissão pelos pecados dos filhos de Israel, os quais temos cometido contra ti; pois eu e a casa de meu pai temos pecado. Temos procedido de todo corruptamente contra ti, não temos guardado os mandamentos, nem os estatutos, nem os juízos que ordenaste a Moisés, teu servo. Lembra-te da palavra que ordenaste a Moisés, teu servo, dizendo: Se transgredirdes, eu vos espalharei por entre os povos; mas, se vos converterdes a mim, e guardardes os meus mandamentos, e os cumprirdes, então, ainda que os vossos rejeitados estejam pelas extremidades do céu, de lá os ajuntarei e os trarei para o lugar que tenho escolhido para ali fazer habitar o meu nome. Estes ainda são teus servos e o teu povo que resgataste com teu grande poder e com tua mão poderosa. Ah! Senhor, estejam, pois, atentos os teus ouvidos à oração do teu servo e à dos teus servos que se agradam de temer o teu nome; concede que seja bem sucedido hoje o teu servo e dá-lhe mercê perante este homem. Nesse tempo eu era copeiro do rei. (Ne 1.5-11.)
Gostaria de apontar para alguns aspectos dessa oração. Primeiro, temos a reverente invocação de Neemias; afinal, ele está falando com Deus. Segundo, ele faz uma oração de confissão; é uma confissão coletiva em que ele se percebe um co-agente do pecado. Terceiro, vemos Neemias orando as promessas de Deus. O conteúdo da sua oração traz à memória aquilo que Deus já falou no passado. E, por último, vemos nascer a oração do compromisso. Neemias torna-se aquele que vê a sua vida entrando na resposta de Deus. E lá está ele se preparando para ser resposta à sua própria oração.
Confesso que tenho saudade de orações assim: uma oração molhada em lágrimas, curtida na reverência, alimentada pela própria Palavra de Deus e gestando caminhos de obediência. O Brasil precisa de orações assim. O Brasil precisa de menos "nhenhenhém" espiritual e mais luto. Menos busca de "coração apaziguado" e mais disponibilidade ativa para fazer diferença na sociedade.
A história de Neemias continua e nós vamos continuar olhando para ela. Hoje, no entanto, ele nos convida a ver, soluçar e orar. Ver o que acontece, soluçar pelo que vemos e orar para que Deus transforme as circunstâncias ao nosso redor. Não é para isso que nós, como igreja, estamos aqui?
Achei este texto muito oportuno, não coloquei tudo aqui. Mas caiu como uma luva.
Tenho estado assim, tenho chorado, e todos querem que eu me cale e sorria, que eu siga em frente e tenha fé.
Claro que tenho que seguir e ter fé,
mas as pessoas não entendem que estou gemendo pelo sofrimento de alguém.
Choro, sofro.
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